
Algumas noites são intermináveis. Frios, medos, suores, barulhos, ruídos desconhecidos, velhos corcundas, espiões, túneis, chuvinha fina, fumaça saindo dos esgotos, odores acres...
Sensações terríveis de desespero, horror e pânico. Impotência. Não consigo fugir, correr, nem gritar. Fico esperando chegar o final do abismo, o momento exato em que me espatifarei no chão, de cara. Ou então a hora que morro com um balaço no peito, sangrando até ficar pálida como uma folha de papel. Ou ainda quando a porra da piscina tem uma superfície envidraça e eu não consigo sair, tento desesperadamente achar uma brecha e nada.
Que merda! Odeio pesadelos.
Que, aliás, como meu pai gosta de lembrar, em inglês é nightmare, ou seja, égua da noite. Ah, se meus pesadelos fossem como uma égua da noite, que me levasse para passear nos campos sob a luz da lua cheia, cabelos ao vento, ao lado de um caubói lindo, os estalidos da lenha queimando na fogueira... Ah, quem me dera.
Qual nada! É mó desespero! Depois que você acorda, apavorada, sobressaltada, ainda leva um tempo até perceber que tudo se tratava de um simples sonho. Se sente idiota, pensa como é possível que sua cabeça produza tantas besteiras. Tenta entender. Talvez seja porque dormi de barriga cheia, de bruços, de cabelo molhado... eu sei lá.
Mas quando amanhece... Aí acabou chorare, ficou tudo lindo, de manhã cedinho...
Então a cabeça volta pro lugar e tudo à aparente normalidade. Aí se pode relaxar e viver a vida tranqüilamente.
Até o sol se pôr. Porque logo depois vem a noite e os velhos corcundas tomam conta cidade, os ratos saem dos buracos, as bruxas se levantam de suas tumbas e os odores fétidos chegam às minhas narinas...