quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Virada


Hoje, na natação, me emocionei ao ver uma garotinha conseguir fazer a virada olímpica. Cada vez que passava por ela, que aflição! Que medo de tomar uma pernada na boca do estômago! Várias tentativas depois... ela foi lá e vlupt. Deu a virada certinha! Meus olhos se encheram de água e o nó apertou a garganta. E pensar que tem alguém dando voltas olímpicas aqui dentro...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

08.03.06


Por que ando dormindo tão mal? Pesadelos.
Hoje tinha um mosquito imaginário
Que não parava de zumbir no meu
Ouvido. Será que é um encosto? Um
Pedido de ajuda? Ou será um sinal para
Parar de fumar?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Jogo de Tarô


Um homem caminha solitário em busca de seu destino. Os caminhos estão abertos. Não há obstáculos. Com a cabeça erguida, avança. É uma viagem sem fim. Não se sabe onde ele vai dar. Confiante, ele vai.

A chave de ouro. Recompensa pelo sacrifício. O êxito. Portas que se abrem. Decisões. Em suas mãos.

A carta. Comunicação, notícias, avisos, alertas. Necessidade de expressão, de diálogo. Coisas ditas, escritas, ouvidas. Segredos guardados.

A torre. Fortaleza solitária. Reserva, introspecção. Poder mental, equilíbrio, sabedoria. Solitude.

Os lírios, as flores. Harmonia, paz, tranqüilidade. Problemas superados. Descanso, trégua.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Boniteza do cerrado.

Os ipês passam o ano inteiro disfarçados.



De repente, explodem em cores.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Fecho os olhos


Fecho os olhos e me imagino no campo. Pequenina e com uma cestinha vermelha na mão. Faz sol. Vejo um cavalo marrom correndo em câmara lenta. Penso que essa referência é muito brega e apago o cavalo dos meus pensamentos. Me imagino então correndo para casa, aquela casinha de madeira lá no pé da montanha. Fica num vale. E tem um rio que passa bem na frente e eu me banho lá. É frio, mas é gostoso nos dias de sol. E gosto de ir com meu maiôzinho amarelo. Tem uns meninos que pegam piabinhas e comem cruas mesmo. Aí me canso dessa história besta e tento imaginar outra coisa. Com essa música da Bjork de fundo fica difícil. Agora mesmo ela está tendo um chilique! Bom, aí fecho os olhos de novo e me lembro de uma imagem brutal que vi num filme: um garoto cego de Madagascar andando de bicicleta. Eu fiquei tão impactada por aquela cena que não posso evitá-la em minha mente. Ele passeia com uma risada sufocada, quase sem ar. Nota-se que é uma sensação forte. Tente andar de bicicleta com os olhos fechados! Me entedio com essa história de brainstorm e busco uma tacinha de vinho do porto, pra ver se me ajuda. Aproveito e acendo um cigarrinho pra acompanhar. Pronto. Vejo uma foto minha com uns seis aninhos no clube, de uniforme, perto da ducha. Quando éramos pequenos e estudávamos à tarde, minha mãe ia com a gente pro clube de manhã. Passávamos a manhã lá, sozinhos, brincando. Umas onze e meia tomávamos banho numa ducha e vestíamos o uniforme. Íamos pra casa já prontinhos. Era só almoçar e ir pra escola. Eu gostava. O parquinho, a piscina rasa, a cancha de areia... Aí me lembro do Jojo, que tinha mesmo uns seis anos na época em que o conheci. Ele é um verdadeiro personagem. Quem o conhece, sabe. Tão pequeno ao lado daquele professor, mas cheio de personalidade. Aproveito a viagem pra longe e me lembro do vendedor de sapatos da Tunísia com sua simpatia única. Lembro-me também do Nagib, o taxista mais gente boa que conheci. “Chicas, la medina por la noche, no. Cuchillo, cuchillo.” E na mesma linha tem também o beco da facada, identificado pelo velho Caza perto da estação de trem de Lisboa. É pertinho, mas melhor irmos de táxi, não? Cara, eu tenho muita história com taxista. Teve o que me botou pra fora no meio da rua, cheia de malas e com a sandália arrebentada - num dia de verão em que o asfalto pegava fogo. Que feladaputa! Putz, derramei o vinho do porto em cima das havaianas. Humpf.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Sabedorias de Mark Twain


"Viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as ideias limitadas; só por isso, muitas pessoas precisam muito viajar. Não se pode ter uma visão ampla, abrangente e generosa dos homens e das coisas vegetando num cantinho do mundo a vida inteira."

"O gentil leitor jamais imaginará o grande asno que pode vir a ser, até o dia em que viaja ao estrangeiro."

Sobre o tagarela de Plutarco


Já dizia o filósofo: sábio é o homem que bebe vinho e se mantém calado.

“É uma surdez voluntária, de homens que, suponho, censuram à natureza o fato de terem apenas uma língua, embora tenham duas orelhas.”

“Os navios apanhados pelos ventos são retirados com a ajuda de cabos e âncoras, que reduzem sua velocidade; mas, para a palavra que, por assim dizer, escapou do porto, não há nem ancoradouro nem ancoragem.”

“Do mesmo modo que o vinho, que foi inventado para o prazer e para a boa convivência, é transformado por aqueles que são forçados a bebê-lo muito e sem mistura num veneno intragável, assim também a linguagem, o mais agradável e o mais humano dos símbolos, torna-se, por aqueles que a empregam mal e negligentemente, inumana e insociável: julgando-se encantadores, eles são enfadonhos; admiráveis, eles são ridículos; amáveis, eles são desagradáveis.”

“O que está no coração do homem sóbrio está na língua do homem embriagado.E tanto o silêncio é profundo, religioso, sóbrio, quanto a embriaguez é faladeira: sendo sem inteligência e dotada de pouco espírito, por isso mesmo faz muito barulho. ”

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O Anjo Negro


Eram amigos inseparáveis desde a infância. Com o tempo, as brincadeiras foram mudando. Abandonaram o pique-pega, as bicicletas e as pandorgas. Cigarrinhos de palha e goles de cachaça às escondidas eram mais divertidos. O pai dela emprestava o carro nos fins de semana, mas com uma condição: o amigo tinha que ir junto.

Certa vez, numa dessas deliciosas aventuras de fim de semana, se embriagaram, fumaram, dançaram, aprontaram. Já era madrugada e eles estavam voltando pra casa. Ela dirigia e eles se perderam na entrada da cidadezinha. Estavam no meio do nada, no meio do mato. Completamente embriagados, não viram o mato-burro logo em frente e caíram no buraco. Conseguiram empurrar o carro pra fora, mas o pneu estava furado. Entreolharam-se. Nenhum dos dois sabia por onde começar. Começaram a rir.

De repente, um homem alto, forte e negro surgiu, não se sabe de onde. Aproximou-se dos dois e sem dizer nenhuma palavra, começou a trocar o pneu. Deve ter levado uns quinze minutos, no máximo. Estiveram, os três, o tempo todo em silêncio. O homem terminou de trocar o pneu e seguiu, sem olhar pra trás. Desapareceu em poucos segundos. Nunca mais o viram.

Quem me contou essa história foram eles mesmos, hoje meus amigos também. E me disseram mais: que aquele homem era, sem sombra de dúvida, um anjo. Um anjo disfarçado de homem, que como veio se foi, sem deixar rastros.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Milonga triste


Estávamos sentados numa mesinha bem no fundo daquele galpão. Os músicos, do outro lado do salão, às gargalhadas, tocavam uma velha milonga. O ambiente estava escuro e enfumaçado, como de costume. No meio do salão, casais apaixonados e amantes do tango dançavam coladinhos, num vai-e-vem incessante. Eu podia ouvir os roces dos vestidos contra as calças, podia sentir aquela mistura de perfumes femininos no ar, podia provar o teu desamor.

Aquelas horas que passamos ali, um ao lado do outro, em silêncio, foram das mais duras. Eu não queria entender, não queria aceitar a tua verdade. No fundo, no fundo, eu sabia exatamente o que me aguardava, mas eu simplesmente preferia ignorar e alimentar qualquer doce esperança tola.

Você estava nervosa, olhava para o chão, girava os anéis nos dedos, rasgava guardanapos, fumava um cigarro atrás do outro. Não era capaz de me olhar nos olhos. Usava sua franja como artifício para esconder os olhos e assim ganhava mais tempo, tempo para decidir como me arrasar da maneira menos dolorosa.

Faço o esforço de me colocar no seu lugar e reconheço que não é fácil dizer “eu nunca te amei”. Mas isso, se você quer saber a verdade, não me serve de consolo. Não me alivia o peito nem me seca as lágrimas.

E me pergunto como você pôde ser tão fria. Enquanto meu mundo ruía, você permanecia inabalável, séria e com os olhos secos postos em mim. Eu estava diante da maior paixão que jamais vivi e não conseguia dizer nada em minha própria defesa. Foste demasiadamente clara para que eu pudesse pronunciar qualquer palavra de súplica.

Hoje, sentado na mesma mesinha do fundo, choro. Escuto outras velhas e tristes milongas e sofro pelo teu não-amor. Ser amado é difícil, eu sei. O meu amor te sufocou e eu entendo tua partida. Mas a ausência de amor é o pior que se pode provar.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Solitário Jorge


Jorge é uma tartaruga. O último da sua espécie, originária das Ilhas Galápagos. Estima-se que o jovem rapaz tenha uns 110 anos, aproximadamente. Levando-se em consideração que as tartarugas chegam a viver mais de duzentos anos, ele está na flor da idade.

Aí botaram o Jorge em contato com tartarugas fêmeas de espécies (reinos, filos, famílias, sei lá) parecidas, para tentar reproduzir. Após meses de expectativa, os pesquisadores identificaram que uma dessas tartarugas tinha posto nove ovos. Surgia então, a esperança.

No entanto, o tempo passou e nunca saíram tartaruguinhas daqueles ovos. Tempos depois, outra fêmea botaria ovos. De novo, nada.

Descobriram que Jorge é infértil.

O último exemplar da espécie, a última esperança, não pode reproduzir. Ironias do destino.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A volta - por cima.

Juja, tá difícil escrever sobre a chegada. Mas vou tentar.

Depois de passar pelo controle da polícia, ainda no aeroporto de Madrid, senti um vazio. Chorei muito, sem saber o porquê. Era uma mistura de alívio e tristeza. Mas logo me acalmei e dormi o vôo inteiro. Aí cheguei!

As duas primeiras semanas foram só farra. Rever os amigos, bater papo com os coroas, comer a comidinha da mamãe, ir à praia (sim, fui ao Rio, que, por sinal, continua lindo!), tomar sol, ceveja, dançar...

Ainda tô chegando, me acostumando a morar em família outra vez, a dirigir, a fugir das blitzes, sei lá. Por outro lado, chegar é maravilhoso. Parece que velhas e tolas ilusões se desintegram, escorrem entre os dedos. Como uma doce e suave pitada de realidade e pé no chão.

Me lembro de toda a expectativa que vivi antes de ir pra Espanha e como a vida lá foi real. Sabe? Acho que na volta rolou algo parecido. Expectativas piscianas - como se eu tivesse esquecido como é o Brasil.

Sair de uma realidade e entrar em outra, dói. Mas é tão bom!!! O melhor talvez seja a mudança de perspectivas. Caí da cama, acordei. Mas gostei de ver o que estava diante dos meus olhos. Agora deixo as lembranças adormecidas seguirem adormecidas. Prefiro escrever um novo capítulo, mais fresco, mais belo e mais meu.

Se é que você me entende...

Beijos no coração.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O hippie inocente

Ele era um desses hippies filhinhos de papai, com conta corrente, cartão de crédito, carro... riponga de mentira, sabe? Ele fazia um tipão de que era muito desprendido das coisas materiais e tal, mas ai de quem metesse a mão no seu potinho de erva.

Estrangeiro inocente, chegou ao Marrocos sem dar-se conta de que estava na África. Queria conhecer as profundezas daquela terra e daquela gente, tão amigáveis aos seus olhos de europeu.

Ao observá-lo, eu experimentava uma mistura de raiva e de pena. Raiva por identificar prepotência em todos os seus atos. E pena por não conseguir entender como ele podia ser tão tolo. Afinal, aos 30 anos, ele não era mais um garotinho.

Incapaz de dar-se conta que era, aos olhos da gente da terra, um saco de dinheiro em potencial, preferia acreditar que estava agradando, fazendo amigos. E talvez pensasse que sua barba ruiva lhe fazia parecer um nativo. Quanta inocência!

Não foram precisos muitos dias para que sua particular tolice lhe propiciasse grandes emoções.

terça-feira, 12 de maio de 2009

É hoje!


Vai chegando ao fim a minha temporada no Solar da Paz. Depois de quinze dias instalada nesse retiro espiritual, respiro fundo, olho pela janela e deixo Madrid entrar. Vou morrer de saudades. Eu sei.

Mas hoje é dia de festa e nao tenho tempo para pensar na partida. Nem quero. Tenho que comprar o absinto, o rum e a vodca que prometi. Além do gelo, do jamón, da tortilla e do tabaco.

Aproveito o dia ensolarado e ponho aquele vestidinho que nao uso desde o verao passado. Acordei serena depois de mais uma noite povoada de sonhos e decidi que essa despedida vai ser encarada como um “até logo”. Nunca gostei de “adeus”.

É com um sorriso à la Carmem Miranda e com essa alegria brasileira que deixo os meus amigos e volto pra minha terra.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Indo...

Tenho o peito doído, o coração batendo forte, uma mistura de vários sentimentos, a cabeça a mil. Só de imaginar a sensação de estar em Brasília e rever tudo, o ar me escapa dos pulmões. O peito dói um pouquinho. Mas já já passa.

A hora do encontro é também despedida e eu começo a sentir saudade de Madrid. Caminho por suas ruazinhas com o coração apertado, imaginando que pode ser a última vez em muito tempo. E só de pensar nos amigos que ficam...

Como num passe de mágica, tudo desaparece. Puf!

Não sei como será sem esses bares enfumaçados, sem o ritual de comer sardinhas no Rastro, sem as tertúlias com a Mari Paz, sem os porres com a Luz, sem ir à Filmoteca com o Álvaro, sem filosofar com o Hique... não sei.

Só sei que vai ser bom demais!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Smoke


Eu conheci um cara que disse que ia pesar the smoke of his cigarrillo. Todo mundo duvidou, disseram que he estava crazy, que seria como tentar pesar the air. Pero ele foi more sagaz de lo que imaginávamos.

Brought uma balança e pesou o cigarro. Logo, he smoked tranqüilamente, echando las cenizas en la balança. Y, por fin, juntou a colilla y verificou o peso. The diference entre os pesos era cuanto pesava o humo.

Amazing, no? A mí me parece. Não sei como não havia pensado nisso antes.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O vestido e a flor


Eu não procurava ninguém. Mas te vi...
Só que esqueci o seu rosto. Esqueci como era. Não lembro o que dizia, nem que roupa usava. Você desapareceu. Acho que nunca mais te vi.

Eu fui embora. Vou, de vez em quando, a algum lugar.
Gosto das ruazinhas estreitas e do barulho da água descendo pelo encantamento das casas. Gosto das varandas com flores e do sol queimando a minha pele.

Ia com um vestido branco, florido. O cabelo solto. Sandálias frescas.
Fumava um cigarro com a mão esquerda. Dirigia escutando música boa, o som bem alto. Arrepiava e experimentava uma sensação de liberdade e falta de ar.

Sentada naquela praça, escutando os pássaros e as crianças, tinha a sensação da iminência do encontro. A partir desse dia, tal sensação voltaria a encharcá-me o peito freqüentemente.

Quem é você?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Confissões



Devo confessar que ainda penso em ti. Que ainda povoas os meus sonhos. Que imagino como será o nosso reencontro. Que gostaria de poder me atirar aos teus braços, sem vacilar.

Que quero ver a tua cara, a tua barba, o teu sorriso, os teus olhos. De perto. Quero te beijar, te abraçar, te cheirar. Chorar de alegria agarrada no teu pescoço. Sorrir, fazer amor, dormir de conchinha, me aninhar no teu corpo.

Tuas reticências me fazem perder o sono. Se ao menos eu soubesse...

A menina e o sapo.


Ao seu lado, ela sempre se sentia intimidada. Não sabia bem o porquê. Logo ela, que sempre foi tão segura! Ele era forte e bonito. Falava com entusiasmo de suas andanças pelo mundo e a contagiava. Tinha uma visão tão prática e positiva das coisas! Quando o escutava, se sentia como uma criança resmungona que não sabe olhar pra vida como se deve.

E lhe contava histórias de outras mulheres... Às quais ela escutava calada, com um sorriso amarelo, tentando disfarçar o incômodo. Ele a via como amiga. Mas ela queria ser mais que isso. Queria ser a moça linda e encantadora que ele havia conhecido do outro lado do mundo. E ele contava detalhes que lhe doíam os ouvidos, mas ela não era capaz de reagir. Ficava ali, escutando e sofrendo, e querendo que ele mudasse logo de assunto.

Se sentia como uma menininha que admira um ator de cinema. Estranhas sensações ele lhe causava. Desconsertava, incomodava. Mas ela gostava mesmo assim.

sábado, 4 de abril de 2009

quinta-feira, 26 de março de 2009

A história do acidente

Era uma noite de sábado e eu tinha combinado de encontrar uma amiga que não via há tempos, numa festa no Lago Norte. Cheguei sozinha. Ela já estava lá, com o namorado, me esperando. Haviam centenas de carros espalhados por todas os conjuntos vizinhos ao da festa. Pois bem, estacionei longe e enfrentei uma fila de uns vinte minutos até conseguir entrar. Fora o fato de eu estar sozinha diante de um casal de apaixonados, estava tudo bem. A festa transcorreu tranqüila.

Em um determinado momento, comecei a conversar com um gatinho e tal... conversa vai, conversa vem... já sabem...

Umas cinco e meia da manhã, mais ou menos, saímos da festa e fomos para a rua onde estava o meu carro. Descemos até a beira do lago e ficamos vendo o dia nascer.

Passados alguns minutos, vejo um rapaz, muito bêbado, tropeçando ladeira abaixo. Ele desceu cambaleando, se escorando nos portões. Me perguntei se devíamos fazer algo ou não. O que fazer? Chamar um táxi, falar com ele, oferecer ajuda, sei lá...

O cara passou por nós outra vez. “Está perdido e procura o carro. Tomara que não encontre”. Ele subiu a rua de novo, virou à direita e seguiu. Uns cinco minutos depois, passava em direção contrária.

Eu não saberia precisar quanto tempo ficamos ali, vendo o sol nascer no final da rua, olhando pro lago. Acho que meia hora, mais ou menos... Quando o gatinho foi me deixar no carro ainda fazia bastante frio, era a primeira hora da manhã - essa hora em que as padarias abrem. Nos despedimos, ele entrou no seu carro e saímos juntos da quadra.

Eu ia à frente. Ao virar à esquerda, já para pegar a pista principal, vi que havia uma ambulância parada do outro lado da pista. Vi também um corpo estendido na calçada, coberto por um lençol branco. Fiquei gelada.

Voltei pra casa com uma sensação super estranha, um peso no peito. Dormi. Os domingos sempre foram difíceis. Esse foi só mais um deles.

Na segunda-feira de manhã acordei cedo pra ir trabalhar. Como de costume, fui até a caixinha de correios e peguei o “Correio”. Comecei a folhear o jornal despretensiosamente, lendo as manchetes. De repente bati o olho numa foto.

Era aquele rapaz bêbado. Algemado, cabisbaixo. Saía da delegacia escoltado. Havia gente tentando agredi-lo. Eu não podia acreditar. Comecei a tremer.

Era o dia do aniversário de 80 anos daquele senhor. Ele havia saído para comprar o pão enquanto a sua esposa preparava a casa. Era dia de churrasco de comemoração. Toda a família foi convidada. Acontece que, quando voltava pra casa, caminhando tranqüilamente pela calçada, foi atingido por um carro, que seguiu sem prestar socorro. Ás oito da manhã, o carro foi encontrado na garagem de um prédio no Sudoeste. Vidros quebrados, pneus furados. Ele cruzou a cidade depois de atropelar uma pessoa. E foi dormir.

Na terça, a primeira coisa que fiz foi buscar o jornal. Havia uma nota. Os exames de álcool no sangue davam negativo.