Ele era um desses hippies filhinhos de papai, com conta corrente, cartão de crédito, carro... riponga de mentira, sabe? Ele fazia um tipão de que era muito desprendido das coisas materiais e tal, mas ai de quem metesse a mão no seu potinho de erva.
Estrangeiro inocente, chegou ao Marrocos sem dar-se conta de que estava na África. Queria conhecer as profundezas daquela terra e daquela gente, tão amigáveis aos seus olhos de europeu.
Ao observá-lo, eu experimentava uma mistura de raiva e de pena. Raiva por identificar prepotência em todos os seus atos. E pena por não conseguir entender como ele podia ser tão tolo. Afinal, aos 30 anos, ele não era mais um garotinho.
Incapaz de dar-se conta que era, aos olhos da gente da terra, um saco de dinheiro em potencial, preferia acreditar que estava agradando, fazendo amigos. E talvez pensasse que sua barba ruiva lhe fazia parecer um nativo. Quanta inocência!
Não foram precisos muitos dias para que sua particular tolice lhe propiciasse grandes emoções.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
É hoje!

Vai chegando ao fim a minha temporada no Solar da Paz. Depois de quinze dias instalada nesse retiro espiritual, respiro fundo, olho pela janela e deixo Madrid entrar. Vou morrer de saudades. Eu sei.
Mas hoje é dia de festa e nao tenho tempo para pensar na partida. Nem quero. Tenho que comprar o absinto, o rum e a vodca que prometi. Além do gelo, do jamón, da tortilla e do tabaco.
Aproveito o dia ensolarado e ponho aquele vestidinho que nao uso desde o verao passado. Acordei serena depois de mais uma noite povoada de sonhos e decidi que essa despedida vai ser encarada como um “até logo”. Nunca gostei de “adeus”.
É com um sorriso à la Carmem Miranda e com essa alegria brasileira que deixo os meus amigos e volto pra minha terra.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Indo...
Tenho o peito doído, o coração batendo forte, uma mistura de vários sentimentos, a cabeça a mil. Só de imaginar a sensação de estar em Brasília e rever tudo, o ar me escapa dos pulmões. O peito dói um pouquinho. Mas já já passa.
A hora do encontro é também despedida e eu começo a sentir saudade de Madrid. Caminho por suas ruazinhas com o coração apertado, imaginando que pode ser a última vez em muito tempo. E só de pensar nos amigos que ficam...
Como num passe de mágica, tudo desaparece. Puf!
Não sei como será sem esses bares enfumaçados, sem o ritual de comer sardinhas no Rastro, sem as tertúlias com a Mari Paz, sem os porres com a Luz, sem ir à Filmoteca com o Álvaro, sem filosofar com o Hique... não sei.
Só sei que vai ser bom demais!
A hora do encontro é também despedida e eu começo a sentir saudade de Madrid. Caminho por suas ruazinhas com o coração apertado, imaginando que pode ser a última vez em muito tempo. E só de pensar nos amigos que ficam...
Como num passe de mágica, tudo desaparece. Puf!
Não sei como será sem esses bares enfumaçados, sem o ritual de comer sardinhas no Rastro, sem as tertúlias com a Mari Paz, sem os porres com a Luz, sem ir à Filmoteca com o Álvaro, sem filosofar com o Hique... não sei.
Só sei que vai ser bom demais!
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Smoke
Eu conheci um cara que disse que ia pesar the smoke of his cigarrillo. Todo mundo duvidou, disseram que he estava crazy, que seria como tentar pesar the air. Pero ele foi more sagaz de lo que imaginávamos.
Brought uma balança e pesou o cigarro. Logo, he smoked tranqüilamente, echando las cenizas en la balança. Y, por fin, juntou a colilla y verificou o peso. The diference entre os pesos era cuanto pesava o humo.
Amazing, no? A mí me parece. Não sei como não havia pensado nisso antes.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
O vestido e a flor
Eu não procurava ninguém. Mas te vi...
Só que esqueci o seu rosto. Esqueci como era. Não lembro o que dizia, nem que roupa usava. Você desapareceu. Acho que nunca mais te vi.
Eu fui embora. Vou, de vez em quando, a algum lugar.
Gosto das ruazinhas estreitas e do barulho da água descendo pelo encantamento das casas. Gosto das varandas com flores e do sol queimando a minha pele.
Ia com um vestido branco, florido. O cabelo solto. Sandálias frescas.
Fumava um cigarro com a mão esquerda. Dirigia escutando música boa, o som bem alto. Arrepiava e experimentava uma sensação de liberdade e falta de ar.
Sentada naquela praça, escutando os pássaros e as crianças, tinha a sensação da iminência do encontro. A partir desse dia, tal sensação voltaria a encharcá-me o peito freqüentemente.
Quem é você?
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Confissões
Devo confessar que ainda penso em ti. Que ainda povoas os meus sonhos. Que imagino como será o nosso reencontro. Que gostaria de poder me atirar aos teus braços, sem vacilar.
Que quero ver a tua cara, a tua barba, o teu sorriso, os teus olhos. De perto. Quero te beijar, te abraçar, te cheirar. Chorar de alegria agarrada no teu pescoço. Sorrir, fazer amor, dormir de conchinha, me aninhar no teu corpo.
Tuas reticências me fazem perder o sono. Se ao menos eu soubesse...
A menina e o sapo.

Ao seu lado, ela sempre se sentia intimidada. Não sabia bem o porquê. Logo ela, que sempre foi tão segura! Ele era forte e bonito. Falava com entusiasmo de suas andanças pelo mundo e a contagiava. Tinha uma visão tão prática e positiva das coisas! Quando o escutava, se sentia como uma criança resmungona que não sabe olhar pra vida como se deve.
E lhe contava histórias de outras mulheres... Às quais ela escutava calada, com um sorriso amarelo, tentando disfarçar o incômodo. Ele a via como amiga. Mas ela queria ser mais que isso. Queria ser a moça linda e encantadora que ele havia conhecido do outro lado do mundo. E ele contava detalhes que lhe doíam os ouvidos, mas ela não era capaz de reagir. Ficava ali, escutando e sofrendo, e querendo que ele mudasse logo de assunto.
Se sentia como uma menininha que admira um ator de cinema. Estranhas sensações ele lhe causava. Desconsertava, incomodava. Mas ela gostava mesmo assim.
sábado, 4 de abril de 2009
quinta-feira, 26 de março de 2009
A história do acidente
Era uma noite de sábado e eu tinha combinado de encontrar uma amiga que não via há tempos, numa festa no Lago Norte. Cheguei sozinha. Ela já estava lá, com o namorado, me esperando. Haviam centenas de carros espalhados por todas os conjuntos vizinhos ao da festa. Pois bem, estacionei longe e enfrentei uma fila de uns vinte minutos até conseguir entrar. Fora o fato de eu estar sozinha diante de um casal de apaixonados, estava tudo bem. A festa transcorreu tranqüila.
Em um determinado momento, comecei a conversar com um gatinho e tal... conversa vai, conversa vem... já sabem...
Umas cinco e meia da manhã, mais ou menos, saímos da festa e fomos para a rua onde estava o meu carro. Descemos até a beira do lago e ficamos vendo o dia nascer.
Passados alguns minutos, vejo um rapaz, muito bêbado, tropeçando ladeira abaixo. Ele desceu cambaleando, se escorando nos portões. Me perguntei se devíamos fazer algo ou não. O que fazer? Chamar um táxi, falar com ele, oferecer ajuda, sei lá...
O cara passou por nós outra vez. “Está perdido e procura o carro. Tomara que não encontre”. Ele subiu a rua de novo, virou à direita e seguiu. Uns cinco minutos depois, passava em direção contrária.
Eu não saberia precisar quanto tempo ficamos ali, vendo o sol nascer no final da rua, olhando pro lago. Acho que meia hora, mais ou menos... Quando o gatinho foi me deixar no carro ainda fazia bastante frio, era a primeira hora da manhã - essa hora em que as padarias abrem. Nos despedimos, ele entrou no seu carro e saímos juntos da quadra.
Eu ia à frente. Ao virar à esquerda, já para pegar a pista principal, vi que havia uma ambulância parada do outro lado da pista. Vi também um corpo estendido na calçada, coberto por um lençol branco. Fiquei gelada.
Voltei pra casa com uma sensação super estranha, um peso no peito. Dormi. Os domingos sempre foram difíceis. Esse foi só mais um deles.
Na segunda-feira de manhã acordei cedo pra ir trabalhar. Como de costume, fui até a caixinha de correios e peguei o “Correio”. Comecei a folhear o jornal despretensiosamente, lendo as manchetes. De repente bati o olho numa foto.
Era aquele rapaz bêbado. Algemado, cabisbaixo. Saía da delegacia escoltado. Havia gente tentando agredi-lo. Eu não podia acreditar. Comecei a tremer.
Era o dia do aniversário de 80 anos daquele senhor. Ele havia saído para comprar o pão enquanto a sua esposa preparava a casa. Era dia de churrasco de comemoração. Toda a família foi convidada. Acontece que, quando voltava pra casa, caminhando tranqüilamente pela calçada, foi atingido por um carro, que seguiu sem prestar socorro. Ás oito da manhã, o carro foi encontrado na garagem de um prédio no Sudoeste. Vidros quebrados, pneus furados. Ele cruzou a cidade depois de atropelar uma pessoa. E foi dormir.
Na terça, a primeira coisa que fiz foi buscar o jornal. Havia uma nota. Os exames de álcool no sangue davam negativo.
Em um determinado momento, comecei a conversar com um gatinho e tal... conversa vai, conversa vem... já sabem...
Umas cinco e meia da manhã, mais ou menos, saímos da festa e fomos para a rua onde estava o meu carro. Descemos até a beira do lago e ficamos vendo o dia nascer.
Passados alguns minutos, vejo um rapaz, muito bêbado, tropeçando ladeira abaixo. Ele desceu cambaleando, se escorando nos portões. Me perguntei se devíamos fazer algo ou não. O que fazer? Chamar um táxi, falar com ele, oferecer ajuda, sei lá...
O cara passou por nós outra vez. “Está perdido e procura o carro. Tomara que não encontre”. Ele subiu a rua de novo, virou à direita e seguiu. Uns cinco minutos depois, passava em direção contrária.
Eu não saberia precisar quanto tempo ficamos ali, vendo o sol nascer no final da rua, olhando pro lago. Acho que meia hora, mais ou menos... Quando o gatinho foi me deixar no carro ainda fazia bastante frio, era a primeira hora da manhã - essa hora em que as padarias abrem. Nos despedimos, ele entrou no seu carro e saímos juntos da quadra.
Eu ia à frente. Ao virar à esquerda, já para pegar a pista principal, vi que havia uma ambulância parada do outro lado da pista. Vi também um corpo estendido na calçada, coberto por um lençol branco. Fiquei gelada.
Voltei pra casa com uma sensação super estranha, um peso no peito. Dormi. Os domingos sempre foram difíceis. Esse foi só mais um deles.
Na segunda-feira de manhã acordei cedo pra ir trabalhar. Como de costume, fui até a caixinha de correios e peguei o “Correio”. Comecei a folhear o jornal despretensiosamente, lendo as manchetes. De repente bati o olho numa foto.
Era aquele rapaz bêbado. Algemado, cabisbaixo. Saía da delegacia escoltado. Havia gente tentando agredi-lo. Eu não podia acreditar. Comecei a tremer.
Era o dia do aniversário de 80 anos daquele senhor. Ele havia saído para comprar o pão enquanto a sua esposa preparava a casa. Era dia de churrasco de comemoração. Toda a família foi convidada. Acontece que, quando voltava pra casa, caminhando tranqüilamente pela calçada, foi atingido por um carro, que seguiu sem prestar socorro. Ás oito da manhã, o carro foi encontrado na garagem de um prédio no Sudoeste. Vidros quebrados, pneus furados. Ele cruzou a cidade depois de atropelar uma pessoa. E foi dormir.
Na terça, a primeira coisa que fiz foi buscar o jornal. Havia uma nota. Os exames de álcool no sangue davam negativo.
quarta-feira, 25 de março de 2009
O país do carnaval!
Ontem, pra aula de português, levei um texto que falava sobre alguns “tipos” brasileiros. O caboclo, o pantaneiro, o seringueiro, o gaúcho, o caiçara... Levei também um mapa e os alunos gostaram bastante. Aí, cheguei em casa e fui pesquisar sobre os estereótipos dos brasileiros, tipo carioca, mineiro, baiano, paulista... E me deparei com artigo de umas psicólogas do Rio. “Viajando com jovens universitários pelas diversas brasileirices: representações sociais e estereótipos”, pra quem quiser arriscar.
Dei uma lida e curti porque, na verdade, me dei conta do tanto que esses estereótipos estão entranhados dentro de nós. Me dei conta também de que, freqüentemente, recorro a eles ao falar do brasileiro. O baiano é preguiçoso, o cearense é cabeça-chata, o mineiro é come-quieto, o paulista é branquelo, o carioca é malandro e o gaúcho é macho! hehehe
Mas a verdade é que os estereótipos existem em todas os lugares e não é nada mais do que uma maneira de se identificar com uns e se diferenciar de outros. Gosto de observar os estereótipos madrileños, por exemplo. Os junkies da praça Dos de Mayo, os playboys do bairro de Salamanca, os rastas de Lavapiés, os gays de Chueca, os estilosos de Malasaña, os gitanos, as velhinhas de Goya, os fashions e seus bulldogues, os sudacas, as putas da Montera, os franceses e seus pic-nics no Retiro, os chinos por todos os lados...
Sei que não soa politicamente correto... mas é assim. Acho que os estereótipos, quando não usados de maneira preconceituosa ou discriminatória, são uma maneira de identificar as diferentes “gentes”.
Me lembro de estar caminhando com o Juliano em Amsterdam e ver dois caras, longe, longe, caminhando em nossa direção. Eu bati o olho e disse: são brasileiros com certeza. E digo mais, cariocas! O Ju rio e concordou. Não deu outra, quando passaram por nós comprovamos a tese. Eram os típicos surfistas do Rio, de bermuda, camiseta e havaiana, com um andar balançado, malandro... hahaha
Eu sei, eu sei... mas é verdade!
E tem a história do baiano que queria vender um refri pra Natália em vez do suco de laranja natural que ela havia pedido. “É que tem que ir lá na cozinha, espremer...” Só faltou ele dizer: é que me dá uma lezeira... hehehe Brincadeira!
Agora falando sério, já que eu sou de Brasília e lá só tem filho de político – e os políticos são todos corruptos – posso ser politicamente incorreta, né?
Dei uma lida e curti porque, na verdade, me dei conta do tanto que esses estereótipos estão entranhados dentro de nós. Me dei conta também de que, freqüentemente, recorro a eles ao falar do brasileiro. O baiano é preguiçoso, o cearense é cabeça-chata, o mineiro é come-quieto, o paulista é branquelo, o carioca é malandro e o gaúcho é macho! hehehe
Mas a verdade é que os estereótipos existem em todas os lugares e não é nada mais do que uma maneira de se identificar com uns e se diferenciar de outros. Gosto de observar os estereótipos madrileños, por exemplo. Os junkies da praça Dos de Mayo, os playboys do bairro de Salamanca, os rastas de Lavapiés, os gays de Chueca, os estilosos de Malasaña, os gitanos, as velhinhas de Goya, os fashions e seus bulldogues, os sudacas, as putas da Montera, os franceses e seus pic-nics no Retiro, os chinos por todos os lados...
Sei que não soa politicamente correto... mas é assim. Acho que os estereótipos, quando não usados de maneira preconceituosa ou discriminatória, são uma maneira de identificar as diferentes “gentes”.
Me lembro de estar caminhando com o Juliano em Amsterdam e ver dois caras, longe, longe, caminhando em nossa direção. Eu bati o olho e disse: são brasileiros com certeza. E digo mais, cariocas! O Ju rio e concordou. Não deu outra, quando passaram por nós comprovamos a tese. Eram os típicos surfistas do Rio, de bermuda, camiseta e havaiana, com um andar balançado, malandro... hahaha
Eu sei, eu sei... mas é verdade!
E tem a história do baiano que queria vender um refri pra Natália em vez do suco de laranja natural que ela havia pedido. “É que tem que ir lá na cozinha, espremer...” Só faltou ele dizer: é que me dá uma lezeira... hehehe Brincadeira!
Agora falando sério, já que eu sou de Brasília e lá só tem filho de político – e os políticos são todos corruptos – posso ser politicamente incorreta, né?
quinta-feira, 12 de março de 2009
O fim da crise
Ainda não havia chegado a primavera, mas, inexplicavelmente, o clima era de verão. Quando, naquela manhã de sábado, de repente, o sol saiu, as pessoas pareciam agradecer aos céus. Saíram aos montes às ruas, a povoar as praças e os parques. No domingo, de novo o mesmo clima: sol forte, céu azul e nenhuma nuvenzinha pra contar a história. Enquanto curtiam o “verão” já se ouviam rumores pessimistas de que aquilo não duraria muito, logo viria o frio de novo. E, teoricamente, até maio não há escapatória. O frio voltaria, assim como os casacos de couro, os cachecóis e as luvas.
No entanto, os dias foram passando lentamente, um trás outro, com o sol lá no alto, brilhando. As praças seguiam cheias de gente. Depois de meses de brancura extrema – exceto pelos turistas italianos que desfilam sempre com seus bronzeados alaranjados quase nada artificiais – já se podia ver rostos rosadinhos e ombros de fora.
Os dias foram ficando mais largos rapidamente. Parecia que cada dia amanhecia um pouco mais tarde e o sol se recusava a dormir tão cedo. Permanecia lá no alto, forte e imperioso. De repente, como num passe de mágica, as flores brotaram e encheram a cidade-cinza de cores e cheiros. Os rostos se iluminaram e os corpos começaram a ser mostrados. Canelas, pés, braços, pescoços.
A luminosidade dourada abriu as janelas e as cortinas. Gentes nas varandas e música. Cervejas e picolés aos litros e quilos. Vozes, risadas e os gritinhos agudos dos pequenos. Patins, bolas, bicis, peões. Vestidinhos, bermudinhas, sandalinhas. Vida, muita vida.
E, de repente, todo mundo parou de falar na crise.
quinta-feira, 5 de março de 2009
It’s hard to be a woman
Ontem fui com o Henrique - recém chegado a Madrid, encantado com tudo – à Sala Barco. É um lugar bem bacana onde, às quartas-feiras, sempre rola uma jam session, ou seja, os músicos vão se revezando e o público agradece. Tanto pela variedade quanto pela qualidade. É jazz.
Eu curto muito porque, além de ser logo aqui na esquina, nunca está muito cheio e é um ambiente bem civilizado. Digo “civilizado”, mas não me entendam mal. É que se trata de um lugar aonde as pessoas vão para escutar a música, tomar a sua cervejinha e dar aquele respiro entre-semana, aquele gás para seguir com a rotina.
Mas a história que eu ia contar era outra.
Lá sempre canta uma garota que é muito boa. Além de cantar muito, é simpática, tem atitude, presença... sério, eu nunca entendi como pode sair tanta voz de um corpo tão franzino. Eu sempre “me pongo la piel de gallina”, me arrepio. É que se fecho os olhos posso tranqüilamente imaginar que estou diante de uma negra norte-americana numa New Orleans dos anos cinqüenta.
Enfim...
Ontem a coisa foi diferente. Eu e o Hique estávamos esperando que ela subisse pra cantar. Eu já tinha feito um baita marketing e, eis que, de repente, não mais que de repente, logo atrás dela, sobe um garoto. Era um cara novinho, duns vinte e poucos anos. Beleza. Até aí tudo bem. Começam a tocar. Ele começa a cantar. Massa. Cantava direitinho. Mas aí chega a vez dela e ele, com uma ansiedade de novato, atropela geral. Passa por cima. Esculhamba.
Ela sorriu meio sem graça e se calou. Ele seguiu, feito um menino que ganha um presente novo, cantando. Passa o refrão. Vem o solo dos músicos e chega a vez dela de novo. Dessa vez, ele inclusive apontava para ela, como quem diz “te toca a ti”, é a tua vez. Ela, sempre sorrindo, começou a cantar:
It’s hard to be a woman… It’s hard to be a woman…
Pois foi justamente nesse momento que o infeliz interrompeu de novo: Yeah, it’s hard to be a woman... oh, yeah.... hard, hard, hard… woman, woman, woman…
Eu, nesse momento, olhava atônita pro Hique e, confesso, se estivesse no Brasil, teria gritado: Fora! Fora! Mas me calei. Fiquei parada, com a boca aberta, observando a cara de “si te pillo te mato” da garota. Ela tentou, mas não conseguiu disfarçar o incômodo. O cara era um menino. Isso pra não dizer “moleque”.
Bueno, o fim da história eu acho que vocês podem imaginar... Ela não conseguiu cantar. Ele passou por cima sempre que pôde. A canção acabou e ela desceu do palco. Mas em sua testa estava escrito: Eu não disse? It’s hard to be a woman!
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Eu estava de mudança...
Eu tava de mudança. Enchi minhas duas malas de tralha pesada. Nesse momento me dei conta da quantidade de coisas que uma pessoa pode acumular em alguns poucos meses. Bom, apelei pras sacolas e bolsas. Ainda assim me faltava espaço. Olhei pra cama. Afff! Ainda faltava muito... fiz uma trouxa enorme com a colcha mesmo. Beleza! No total eram uns sete volumes.
Eu olhava pra tudo aquilo e ria. Como eu ia descer tudo? Resolvi tentar de táxi. Comecei a descer – quatro andares, sem elevador – o mais pesado. Deixava uma mala no térreo e subia correndo pra buscar outra, com medo de que me roubassem a primeira. Será mania de brasileiro?
Tive que fazer duas viagens de táxi. Enfim, na segunda viagem, já descabelada e com fome, o taxista parou numa esquina pra eu descarregar as coisas. Eis que surge um casal vindo em nossa direção.
Vocês não podem parar aqui. Estão interrompendo a passagem – disse o homem.
Sim, senhor, mas eu estou de mudança... será que você não pode desviar dois metros pra direita e passar? – ponderei, eu.
Não. Tira essas malas pra eu passar.
Que?
Quero passar. Você está bloqueando a rua.
Tá de sacanagem? Dá a volta, cara. Recua dois metros e passa!
Nesse momento, o taxista, apressado, tirou as malas do meio do caminho do mala-mór. Passaram, ele e a mulher, que resmungava e assentia com a cabeça. Iam cheios da razão, plantando discórdias por aí.
Eles passaram e eu não me agüentei.
Cara, e o bom senso? Eu estou me mudando... estou tirando minhas coisas e o táxi já vai... são três minutos.
E o que me importa se você está de mudança?
E o que me importa se você é um grandíssimo filho da puta?
Ele seguiu, sem olhar pra trás. Ciente de sua condição de amargado.
Eu fiquei tremendo, nervosa. Não tenho o costume de gritar ofensas na rua. Mas é que acho que tem gente que merece um sacode de vez em quando. E essa máxima que diz que “você dá o que recebe” é a mais pura verdade.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Madrid
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Carnaval
Ontem foi noite de carnaval em Madri.
Passaram batmans, robins, noivas, bruxas, romanos, vacas, vikings... Houve de tudo na avenida. Teve muito beijo e algumas brigas. Encontros, reencontros e desencontros. Cerveja, vinho e uísque. Viado, macho e bi. Sóbrias e ébrias. Sós e acompanhados. Havia de tudo um pouco.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Dulce de Banana

Ela está sozinha em seu quarto, diante do computador, com dor nas costas e com a cabeça cheia.
Escuta algo que soa ritmado e alegre ao fundo. Não sabe bem o que fazer. Caetano a leva embora por uns minutos.
Há um frasco com tampinha azul de Dolce & Gabanna. Dulce & Banana. Dulce de Banana.
E volta ao que estava fazendo, ou seja, tentando esvaziar a cabeça. Sente o peito aliviado e apertado ao mesmo tempo.
Escreve uma lista de coisas que tem que fazer. Escreve com força, marcando o papel. É hora de se concentrar, pensa. Concentrar em relaxar.
Complicado isso!
E, assim, fica horas. No seu microcosmo. Tentando se recuperar do fim-de-semana mais terapêutico (terapia de choque) dos últimos dois anos.
E sentindo o couro endurecer.
Tinha sido exposta a muita informação, ainda não lhe havia dado tempo digerir tudo aquilo.
Dulce... e que seja mais doce, pensava.
Caixinha de surpresas

Ela tinha oito anos. Levava um vestidinho de bolinhas vermelhas com fundo verde. Caminhava graciosa, segurando uma caixinha de madeira na altura do peito. E umas sandalinhas vermelhas, combinando com o vestido.
Passara os últimos três dias preparando o presente. Era uma caixinha de surpresas.
Estava convencida de que qualquer um gostaria daquele detalhe. Ia serena, com um sorrisão que mostrava a janelinha.
Ele era seu vizinho. Pequenino também. Só queria saber de jogar bola com os amigos. E corria tão rápido! Costumava usar um uniforme da escolinha de futebol que freqüentava. Verde e branco. E os cabelos grudados no suor da testa.
Ela tocou a campainha. Uma mulher gorda com uma vassoura na mão abriu a porta. Perguntou por ele. Peraí. Ei, menino! Já vou. Oi. Oi. E estendeu as mãos, oferecendo-lhe a caixinha.
Ele não esperava. Não estava preparado para tanta doçura. E reagiu, de uma maneira que é comum às crianças. Rejeitou. Não aceitou. E fechou a porta.
O sorriso se apagou e deu lugar a umas pequenas lágrimas. Pela primeira vez havia sido apunhalada. Mas o tempo curou. Várias outras punhaladas, sentiu.
E segue por aí, tentando encontrar alguém que goste da caixinha de surpresas.
Que bode...
Bode...
Eu não quero esse bode
Esse bode é igual
Àquele Carnaval
Que eu passei sem você
Vê se pode...
Sustentar esse acorde
Acordar pra saber
Pra me reconhecer
No minuto final
Você foi um sucesso
Na minha vida
O meu lado do avesso
O começo da minha vertigem
A origem do meu velho nó
Você é um fracasso
Do meu lado esquerdo do peito
Uma corda de nylon de aço
Que arrebenta quando eu faço um dó
De Sérgio Sampaio
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
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