segunda-feira, 8 de junho de 2009

Milonga triste


Estávamos sentados numa mesinha bem no fundo daquele galpão. Os músicos, do outro lado do salão, às gargalhadas, tocavam uma velha milonga. O ambiente estava escuro e enfumaçado, como de costume. No meio do salão, casais apaixonados e amantes do tango dançavam coladinhos, num vai-e-vem incessante. Eu podia ouvir os roces dos vestidos contra as calças, podia sentir aquela mistura de perfumes femininos no ar, podia provar o teu desamor.

Aquelas horas que passamos ali, um ao lado do outro, em silêncio, foram das mais duras. Eu não queria entender, não queria aceitar a tua verdade. No fundo, no fundo, eu sabia exatamente o que me aguardava, mas eu simplesmente preferia ignorar e alimentar qualquer doce esperança tola.

Você estava nervosa, olhava para o chão, girava os anéis nos dedos, rasgava guardanapos, fumava um cigarro atrás do outro. Não era capaz de me olhar nos olhos. Usava sua franja como artifício para esconder os olhos e assim ganhava mais tempo, tempo para decidir como me arrasar da maneira menos dolorosa.

Faço o esforço de me colocar no seu lugar e reconheço que não é fácil dizer “eu nunca te amei”. Mas isso, se você quer saber a verdade, não me serve de consolo. Não me alivia o peito nem me seca as lágrimas.

E me pergunto como você pôde ser tão fria. Enquanto meu mundo ruía, você permanecia inabalável, séria e com os olhos secos postos em mim. Eu estava diante da maior paixão que jamais vivi e não conseguia dizer nada em minha própria defesa. Foste demasiadamente clara para que eu pudesse pronunciar qualquer palavra de súplica.

Hoje, sentado na mesma mesinha do fundo, choro. Escuto outras velhas e tristes milongas e sofro pelo teu não-amor. Ser amado é difícil, eu sei. O meu amor te sufocou e eu entendo tua partida. Mas a ausência de amor é o pior que se pode provar.

Um comentário:

Ju disse...

Gostei do POV, o famoso ponto de vista!

Beijos, amada!