quinta-feira, 5 de março de 2009

It’s hard to be a woman



Ontem fui com o Henrique - recém chegado a Madrid, encantado com tudo – à Sala Barco. É um lugar bem bacana onde, às quartas-feiras, sempre rola uma jam session, ou seja, os músicos vão se revezando e o público agradece. Tanto pela variedade quanto pela qualidade. É jazz.

Eu curto muito porque, além de ser logo aqui na esquina, nunca está muito cheio e é um ambiente bem civilizado. Digo “civilizado”, mas não me entendam mal. É que se trata de um lugar aonde as pessoas vão para escutar a música, tomar a sua cervejinha e dar aquele respiro entre-semana, aquele gás para seguir com a rotina.

Mas a história que eu ia contar era outra.

Lá sempre canta uma garota que é muito boa. Além de cantar muito, é simpática, tem atitude, presença... sério, eu nunca entendi como pode sair tanta voz de um corpo tão franzino. Eu sempre “me pongo la piel de gallina”, me arrepio. É que se fecho os olhos posso tranqüilamente imaginar que estou diante de uma negra norte-americana numa New Orleans dos anos cinqüenta.

Enfim...

Ontem a coisa foi diferente. Eu e o Hique estávamos esperando que ela subisse pra cantar. Eu já tinha feito um baita marketing e, eis que, de repente, não mais que de repente, logo atrás dela, sobe um garoto. Era um cara novinho, duns vinte e poucos anos. Beleza. Até aí tudo bem. Começam a tocar. Ele começa a cantar. Massa. Cantava direitinho. Mas aí chega a vez dela e ele, com uma ansiedade de novato, atropela geral. Passa por cima. Esculhamba.

Ela sorriu meio sem graça e se calou. Ele seguiu, feito um menino que ganha um presente novo, cantando. Passa o refrão. Vem o solo dos músicos e chega a vez dela de novo. Dessa vez, ele inclusive apontava para ela, como quem diz “te toca a ti”, é a tua vez. Ela, sempre sorrindo, começou a cantar:

It’s hard to be a woman… It’s hard to be a woman…

Pois foi justamente nesse momento que o infeliz interrompeu de novo: Yeah, it’s hard to be a woman... oh, yeah.... hard, hard, hard… woman, woman, woman…

Eu, nesse momento, olhava atônita pro Hique e, confesso, se estivesse no Brasil, teria gritado: Fora! Fora! Mas me calei. Fiquei parada, com a boca aberta, observando a cara de “si te pillo te mato” da garota. Ela tentou, mas não conseguiu disfarçar o incômodo. O cara era um menino. Isso pra não dizer “moleque”.

Bueno, o fim da história eu acho que vocês podem imaginar... Ela não conseguiu cantar. Ele passou por cima sempre que pôde. A canção acabou e ela desceu do palco. Mas em sua testa estava escrito: Eu não disse? It’s hard to be a woman!

5 comentários:

Mário Medaglia disse...

Olá Marie-ta-ta-ta. Vi isso aqui em Floripa noite dessas. Aconteceu com uma argentina chamada Nuria, que às vezes canta com o nenê nos braços para amamentá-lo. A menina tem 21 anos e canta blues. No caso dela foi o batera o atropelador. Lamentável. Beijos invejosos do teu boteco de esquina, té de repente, Mário

Ju disse...

Linda, fogo, né?
Por isso, pela força toda extra que tem uma voz feminina, que eu amo ouvi-las!

Gi disse...

Mas então o Henrique nem conheceu o tal vozeirão? que pena...

bjão linda!!

Anônimo disse...

Etona, como sabes sou um legislador. Cada dia crio uma lei. Uma delas é: nunca franqueies o microfone num lugar publico. Os chatos adoram microfone. É isso
Cazao

Anônimo disse...

quem não consegue parar de comer e de falar está vazio por dentro. parecem amigas que te convidam para sair e usar teus ouvidos como penico
beijos mamy