sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O dia em que deus me sacaneou


Estava numa pequena cidade cujo nome não vem ao caso. Comemorávamos um êxito que também não vem ao caso. O fato é que já era quase cinco da manhã e eu estava completamente embriagada. Estava suficientemente alterada para andar em zig-zags por aquelas calçadinhas estreitas e desertas.

Saí da “festa” deixando meus companheiros em igual ou pior estado. Éramos uns oito ou nove. Mas eu era a única que tinha que seguir viagem.

Caminhava decida, embora sem muita pontaria, rumo ao castelo em que estava hospedada. Era um palácio do século XVI (ou XVIII, tanto faz) transformado em albergue. Cruzei o imponente portão e segui pelos jardins. Ainda não estava amanhecendo, mas meus olhos já haviam se acostumado à escuridão. Subi a escadaria e, esbarrando em tudo o que havia no meu caminho, consegui chegar a minha habitação. Havia outras pessoas no mesmo quarto. Obviamente, dormiam. Não acendi as luzes. Minha sorte é que tenho um bom sentido de localização e direção.

Encontrei, sem dificuldades, a minha cama e, ao pé dela, minha mala. Com o tato, no escuro, identifiquei a roupa que queria vestir. Não me perguntem qual era, não me lembro. Me dirigi ao banheiro. Acendi a luz. Ufa! Que alívio.

Tomei um banho rápido e quente. Me vesti e voltei ao quatro escuro. Enfiei a roupa da festa na mala sem nenhum cuidado, sem dobrar nem nada. Estava muito bêbada para fazer as coisas com capricho. Eu era pura torpeza. Tive que sentar em cima da mala para poder fechá-la. Fechei.

Chego na “recepção” e, muito sem graça, desperto o simpático homem responsável pelo palácio. Pedi, não sei como, pois não falávamos o mesmo idioma, que me chamasse um táxi. Necessitava estar na estação de trem dentro de quinze minutos. Enquanto esfregava os olhos e lambia os beiços, ele me olhava surpreso.

- Você quer um táxi? A essa hora? Pois... não tem.

- Como assim? Não tem?

- Não tem... Espera, vou tentar.

Pegou o telefone e, descrente, discou... nada. Ninguém atendia. Ele, sem dar-me nenhum tipo de explicação, virou as costas e saiu. Voltou em seguida com umas chaves na mão e me disse:

- Vem comigo.

Eu fui. Caminhamos até o estacionamento. Ele, aquele santo homem, ia me levar no seu carro até a estação, às cinco e tanto da manhã de uma quarta-feira qualquer. Era um anjo da guarda.

Eu lhe agradeci muito, mais com gestos do que com palavras. Eu nem sabia o que fazer, mas tinha vontade de abraçá-lo. Quando chegamos na estação, tentei que aceitasse algo de dinheiro e ele recusou. Acho até que se ofendeu um pouco. Mas, com sua simpatia habitual, me desejou uma boa viagem e se foi.

Já me sentia um pouco mais lúcida, embora não conseguisse realizar movimentos sutis e delicados. Entrei na estação e me dirigi à fila para comprar a passagem. A fila não andava e eu, agoniada, olhava pro relógio e via o tempo passar. Não poderia precisar quanto tempo estive na fila, talvez uns dez minutos. Nesse momento, passou perto de mim um homem com uniforme da estação.

- Senhor, desculpa, é nessa fila que compro as passagens pra Maracangalha?
-
- Maracangalha? Hoje é quarta-feira, não tem trem pra Maracangalha hoje...
-
- Como assim? Eu tenho que estar lá dentro de três horas, senão perco o vôo de volta pra casa!
-
- O que você pode fazer é tentar pegar o ônibus, que sai logo ali, onde Judas perdeu as botas.

Eu não estava em condições de discutir – nem tinha léxico para tanto. Saio da estação e me deparo com um táxi com todas as portas abertas, inclusive o porta-malas. Já começava a amanhecer e o taxista estava limpando, com uma dessas flanelinhas amarelas, os vidros do carro. Me aproximei e, muito educadamente, lhe pedi que me levasse lá onde Judas perdeu as botas. Ele me disse que não, que estava limpando o carro. Simples assim. Falou comigo num tom quase de deboche, como se eu fosse a pessoa mais sem-noção da face da terra. Parecia que eu havia pedido a ele que me levasse à Bahamas de táxi.

É óbvio que insisti, fiz cara de choro, apelei à Santa Virgem, implorei, fiz charminho... E ele me levou. De cara feia, mas me levou. Quando chegamos, na hora de pagar, bem faceira, saquei uma nota de 50. Ele não podia acreditar. Bufafa, vermelho. Atirou minha mala na calçada – para não dizer que arremesou - e ofendeu todos os meus familiares, sem exceção. Eu ouvi, caladinha, sem dizer nada. O que eu podia fazer? Eu não tinha troco...

Sem ter outra saída, ele me deu o troco e se foi cantando pneus. As pessoas na parada de ônibus me olhavam pasmos. Uns com pena, outros com olhar de repressão.

Felizmente o ônibus chegou poucos minutos depois. Entrei, paguei ao motorista e perguntei quanto tardaríamos para chegar à Maracangalha. Ele me disse que umas duas horas e meia. Fiz os cálculos de cabeça e vi que, com um pouco de sorte, poderia não perder o avião. Me acomodei, ajeitei o despertador do celular e dormi o sono dos justos.

Acordei sobressaltada com o alarme. Confirmei com o motorista que estávamos chegando. Ok, tudo ia bem. Desci na estação e, com minha mala em punho, fui informar-me sobre o transporte até o aeroporto. Caramba, que saga! Aquele sofrimento não acabava nunca. E, na verdade, eu já abandonava o estado de embriaguez e começa a sentir os sinais da ressaca. Encarei mais meia hora de ônibus até o aeroporto. Fui cochilando, os olhos iam fechando devagarinho, a cabeça ia caindo pra um lado, até que... opa! Acordava com o queixo quase entre os seios. Dava esse típico coice de pescoço para trás, disfarçando, e tentava manter-me desperta. Que inferno! E que gosto de guarda-chuva na boca!

Cheguei no aeroporto! Ia dar tempo. Eu nem podia acreditar. Foi quando, para minha alegria suprema, vislumbrei a fila de embarque. Nesse momento, me despi de qualquer vergonha-na-cara ou consideração-ao-próximo e fui diretamente ao guichê, ignorando a fila. Expliquei à atendente que meu vôo já ia sair e ela, serenamente, me pediu que aguardasse. Aguardei uns minutos e ela me chamou.

Eu já estava com a passagem na mão e um sorriso na boca quando ela me avisou que eu não tinha pagado a taxa necessária para despachar a bagagem. Ou seja, tinha que encarar mais uma fila. E mais uma taxa.

Pois bem, enfrentei mais uma fila e mais uma taxa. Paguei. Me sobravam no bolso uns cinco euros... Entrei no avião atrasada. Só faltava eu. Olhares de ódio em minha direção. Estava cansada demais pra importar-me com olhares alheios. Dormi.

Aliás, dormi antes da decolagem e acordei depois da aterrissagem. Cheguei. Recolhi minha mala e enfrentei quarenta e cinco minutos de metrô até a estação mais perto da minha casa.

Às três da tarde cheguei, enfim...

Entrei em casa. Bebi meio litro de água e dormi até o dia seguinte.

Aquela batalha, eu havia ganhado. Agora, que deus tava de sacanagem comigo, isso tava.

3 comentários:

Anônimo disse...

Etonante, ouvimos essa história rocambolesca - tão rocambolesca que me deu ansia de võmito - durante uma noitada em Madrid, conatada pela pro
Nada perdeu do seu viço na versão escrita.
Para quem gosta de escritura, talvez esteja até melhor aqui.
Considerando, porém, a minha grande estima pela gramáica, eu mudaria o titulo para:
O dia em que deus me sacaneou
ou
Deus estava de sacanagem para cima de mim
Abraço do Oldão

Filha de Iemanjá disse...

hehehehehe

sabe que eu tava em dúvida...

Pois bem, sugestão acatada.

Aninha disse...

Eta, esse negócio de taxista não estar afim de trabalhar à noite.. você tava aqui na bélgica, não?? hehe ;)
Como vai tudo por Madrid. Não acredito que fui aí umas 3 vezes ano passado e não nos encontramos.. Quem sabe na próxima?
beijos!