quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O nó



Era uma terça-feira de inverno em Madrid. Ela caminhava apressada por Chueca, olhava para os lados em busca de um lugar para comer. Tinha muita fome e pouco tempo. Em breve deveria estar do outro lado da cidade, dentro de um escritório escuro e impessoal.

Entrou num pequeno restaurante chamado “El Rincón de Chueca”. Os garçons e os clientes faziam jus à fama do bairro. Eram todos, ou quase todos, homossexuais. Ela se sentou sozinha numa mesa e sorriu. Sempre se sentira bem entre os homens. E, na verdade, sempre desfrutara de uma simpatia pelos gays, e era recíproco.

Pediu uma ensalada mixta e salmão a la plancha. Quando já estava por terminar a salada, percebeu que o homem que estava na mesa em frente a sua, sozinho, choramingava. Observou-o atentamente durante os quinze minutos restantes de que dispunha para almoçar. O homem se lamentava, murmurava algo para si mesmo. Notou uma tristeza profunda.

Em nenhum momento ele lhe pareceu estar zangado ou arrependido de algo. Estava triste. As lágrimas corriam soltas por seu rosto. Algumas desciam até o queixo e logo desapareciam no cachecol. Outras eram tragadas junto com os espaguetis.

Ela não entendia como o sofrimento oculto de um anônimo podia causar-lhe tamanho impacto. A cada garfada angustiada daquele homem ela sentia o peito apertar mais. Não conseguiu terminar de comer.

Pediu ao garçom que lhe preparasse o salmão para levar. Pagou a conta, fumou um cigarro e, ao levantar-se para ir embora, foi dominada por um sentimento muito forte. Tremia dos pés à cabeça e, sem tentar reprimir o impulso, levantou-se e foi até a mesa daquele homem.

Inclinou-se para frente e lhe perguntou, com a voz tremida e fraca:

- Perdoe-me, você está muito triste, não?

- Sí...

E viu duas gotas gordas escorrerem naquele rosto desconhecido.

- Posso te dar um abraço?

- Sí...

Abraçou-o como a um velho amigo. Com força. E sussurrou-lhe ao ouvido que não se preocupasse, mesmo sem saber o porquê da tristeza. Ele, totalmente entregue ao abraço, beijou-lhe o pescoço - com esses beijinhos murchos de quem sofre.

Eles se entreolharam com os olhos cheios de água. Ela não conseguiu dizer nada mais. Despediu-se com a cabeça e se foi. Ele seguiu-a com o olhar.

Ao sair do restaurante, ela sentia o peito repleto de luz, sensação boa, mas que lhe causava dificuldade para respirar. Ele, sentado naquela mesinha, só e perplexo, sentia-se aliviado, como se houvessem desfeito o nó que lhe apertava a garganta.