segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Aquela cigana...


Não era um dia especial de maneira nenhuma. Ela chegou em casa de noite e se viu sozinha. Não tinha sono. Resolveu que queria tomar algo. Abriu uma garrafa de vinho do porto. Estranho... nunca bebia vinho do porto. Ou melhor, quase nunca.

Ligou o som do quarto e se sentou no chão, no carpete azul. Estava feliz por estar sozinha. Curtia essa sensação ainda meio infantil de liberdade, de domínio de seu próprio nariz. Era como se ausência de seus pais lhe permitisse tudo. Na verdade, não faria nada proibido. Seguiria ali sentada, ouvindo música e se deixando arrepiar pela poesia e pela dor daquelas canções.

Estava emocionada, se sentia já mulher. Sabia que em breve estaria muito longe dali, experimentando outras coisas. O que não conhecia ainda era o real significado da palavra “solidão”, essa ainda não fazia parte de seu dicionário. Mas estava feliz. O ar às vezes, lhe faltava, como costuma ocorrer quando a ansiedade e a expectativa nos consomem. Passou muito tempo ali sentada, pensando, imaginando o que estaria por vir, sem a menor idéia do que lhe aguardava realmente.

De repente, entre um cigarro e outro, se levantou e olhou-se no espelho. Mas não se reconhecia. Seu rosto estava estranho, diferente. Aquela postura não era a sua. Aquele olhar, aquelas mãos segurando o cigarro. Não era ela.

Fechou os olhos, assustada. Tornou a abri-los, mas aquela imagem seguia refletida no espelho. Resolveu encará-la.

Pouco a pouco, contagiada pela música e sem oferecer resistência, começou a dançar devagarinho. E, sem perceber, aquela dança foi se tornando mais e mais intensa. Rendeu-se.

Dançou, fumou, bebeu e, pela primeira vez, deu ouvidos àquela cigana linda, feminina, forte e imponente, que levava dentro de si.

3 comentários:

goooooood girl disse...

your blog is feel good......

A Riscar disse...

Lindo, Eta. Lindo.

Amei esse texto, senti cada momento que você descreveu, os sentimentos que em situações parecidas (e diferentes ao mesmo tempo) vêm ao nosso encontro.

Amei o texto e esperava, ansiosa e sem saber, essas tuas palavras.

Te amo.


Beijo.

Ju disse...

Simples e lindo, adorei!
Você tá que tá até difícil acompanhar! Oba!